Após ataques de Bolsonaro, visita de Mourão abre ‘novo capítulo’ na relação com a China

O Globo | Críticas do presidente durante a campanha incomodaram, mas ida do vice-presidente ao país serviu para relaxar tensão e reabrir diálogo

A visita do vice-presidente Hamilton Mourão àChina , concluída nesta sexta-feira, parece ter dissipado a ansiedade entre as autoridades de Pequim causada pela retórica agressiva usada pelo presidente Jair Bolsonaro em sua campanha contra a crescente presença chinesa no Brasil. Envolvida numa guerra comercial de desfecho imprevisível com os EUA, a China viu afastada a tensão com seu maior parceiro comercial na América Latina.

Mourão deixou claro que o objetivo da viagem era passar uma “mensagem política”, de que o governo Bolsonaro considera a China um parceiro estratégico. Ou seja, inverter a impressão dada pelo presidente na campanha, quando disse que a China estava “comprando o Brasil” com investimentos predatórios.

Na conclusão da viagem, Mourão contou que conversou com Bolsonaro após a vitória na eleição presidencial e mostrou que era preciso deixar para trás o que fora dito “no calor da campanha”.

— A China é o nosso maior parceiro comercial, o motor da economia mundial, é uma área de densa oportunidade de negócios para as nossas empresas — disse Mourão. — Essa comunhão entre os dois países ficou clara para o presidente Bolsonaro e ele me deu a determinação de abrir o caminho para que proximamente ele possa visitar a China.

Incômodo com Taiwan

Para o governo chinês, a visita de Mourão representou a abertura de “um novo capítulo”, disse Zhao Bentang, diretor do departamento de América Latina do Ministério das Relações Exteriores da China. Talvez até mais que as declarações de Bolsonaro na campanha, o que deixou a China realmente incomodada foi a visita que feita em fevereiro de 2018 a Taiwan, que Pequim considera uma “província rebelde”.

— Taiwan é um interesse essencial da China. A comunidade internacional reconhece que existe apenas uma China — disse Zhao, que elogiou a mudança de tom do presidente. — Desde a posse, o presidente Bolsonaro tem afirmado que atribui importância à relação com a China e quer impulsionar o relacionamento China-Brasil a um novo patamar sem viés ideológico. Quem coopera com a China sabe o benefício.

Embora não fossem esperados anúncios concretos, como abertura de mercados, Mourão e os diplomatas envolvidos nas negociações destacaram que o mais importante era a visita em si, e a retomada da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), mais alta instância de diálogo bilateral, parada há quatro anos.

Nos seis dias em que esteve na China, o vice-presidente teve tempo para visitar alguns dos símbolos do país, como a Cidade Proibida e a Grande Muralha, e também se atualizar sobre os principais temas da relação bilateral, como o programa de cooperação espacial e comércio. Neste último, enfatizou diversas vezes a necessidade de as exportações brasileiras terem maior valor agregado, já que hoje estão concentradas em matérias-primas como soja, carnes, minério de ferro e combustíveis, enquanto as importações da China são de manufaturados.

Para a China, a visita foi mais uma vitrine para seu megaprojeto global de infraestrutura, a Nova Rota da Seda (Iniciativa do Cinturão e Rota, no nome oficial), que prevê investimentos de US$ 1 trilhão na próxima década. Como faz hoje em todas as ações oficiais, a China incluiu o programa no documento de conclusão da Cosban, afirmando que o Brasil poderá fazer parte por meio de parcerias público-privadas. Mourão disse diplomaticamente que o Brasil está “aberto a propostas”, mas deixou claro que não vê necessidade de os investimentos chineses se enquadrem no projeto.

A iniciativa é antes de tudo “um projeto geopolítico”, observou o presidente do Conselho Empresarial Brasil-China e ex-embaixador do Brasil em Pequim, Luiz Augusto de Castro Neves, que acompanhou a Cosban. Sendo assim, é de interesse para a China atrair o maior número possível de países para a órbita do programa e ampliar seu alcance político. Caberá ao Brasil avaliar o que ganha em aderir oficialmente, como já fizeram mais de cem países, incluindo 19 da América Latina, Peru o mais recente.

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