Relações com a China demandam um ambiente amistoso e de confiança

Folha de S.Paulo |Brasil é um dos principais fornecedores de soja e minério de ferro ao país asiático

[…] Confiança é um elemento essencial da relação entre pessoas e países. É impensável imaginar que o Brasil e a China possam construir um ambiente em que um e outro busquem testar os limites para o desentendimento. Melhor é tratar os pontos de dependência mútua como um ativo e, a partir deles, construir bom diálogo e uma agenda positiva de trabalho.

Há muito a fazer no contexto bilateral. Nas áreas de biociências, financiamento conjunto de grandes projetos, ambiente, tecnologia e digitalização, cidades inteligentes, uso de moedas nacionais em operações de comércio, com a consequente designação de uma instituição para fazer o clearing, abertura de caminhos no segmento financeiro.

Muitos países estão ampliando a presença financeira na China. Instituições de peso norte-americanas ganharam recentemente acesso ao mercado chinês, e vários fundos e bancos estão na fila.

Com taxas de juros zero ou negativas em tantos mercados, o apetite para entrar é enorme. Informa o jornal China Daily que os EUA ampliaram os investimentos diretos na China em 6% no primeiro semestre, a despeito das discussões abertas sobre o “decoupling” das economias e do discurso belicoso de Trump.

As teias da relação China-EUA são múltiplas e complexas. Nenhum outro país pode imitar a postura de Washington e sair ganhando.

Num quadro de alguma incerteza sobre o futuro, o Senado concluiu os procedimentos para ingresso brasileiro no Banco Asiático de Desenvolvimento, sediado em Pequim. É boa notícia, que abrirá ainda mais portas para o financiamento de nossos projetos quando os investimentos em infraestrutura retomarem com força na nossa realidade.

Mas, sem um ambiente amistoso e de confiança, nada acontecerá. É da cultura asiática. É preciso beber com eles para fazer os negócios florescerem.

Marcos Caramuru de Paiva foi embaixador em Pequim de 2016 a 2018

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