Como a pressão dos EUA contra a Huawei pode influenciar a relação Brasil-China

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Gazeta do Povo | Importantíssimo player mundial e segundo maior mercado global – nos calcanhares do número um –, a China ganhou em anos recentes um reforço no seu papel de antagonista dos EUA, em uma disputa geopolítica que provocou tensões para além dos dois países. A “guerra” tem como um dos seus protagonistas a gigante tecnológica Huawei e, nesta semana, teve novo capítulo que pode influenciar a relação entre Brasil e China.

Autoridades norte-americanas, em visita a Brasília, prometeram US$ 1 bilhão às teles brasileiras para que contratem outros fornecedores, como a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia. Antes, voltaram a afirmar que a Huawei representa risco para a soberania e a segurança nacional e uma ameaça para a cooperação entre Brasil e EUA.

[..]A proximidade do presidente Jair Bolsonaro com o governo Trump gera preocupações de que ele possa decidir pela exclusão da Huawei do leilão brasileiro do 5G por afinidade com os EUA.

Segundo Nestor Forster, embaixador do Brasil em Washington, a decisão só sai no ano que vem e será tomada de modo a “atender ao interesse nacional”. Em setembro, Bolsonaro chegou a afirmar que a escolherá pessoalmente os parâmetros para a adoção do 5G.

Esse possível cenário é criticado pelo economista Roberto Dumas, mestre em economia chinesa pela Fudan University, de Xangai. Para o especialista, é necessário um parecer técnico para a definição, de modo a preservar o melhor interesse do Brasil no caso.

Dumas destaca o tamanho da fatia de exportações brasileiras que têm o país asiático como destino – 40% das commodities agrícolas – ao afirmar que o Brasil tem muito a perder numa eventual escolha por ficar ao lado de Trump por ideologia.

[…]O especialista diz ter certeza de que o Brasil pode ser retaliado caso a Huawei seja escanteada pelo governo Bolsonaro. Segundo ele, a China não explicitaria a relação causa/consequência, mas poderia tornar a vida do Brasil “mais difícil” nas suas relações comerciais.

[…]”O Brasil é um importante mercado mundial. Aqui temos que modernizar nossa infraestrutura logística, o que inclui telecomunicações e rede de banda larga e o mundo sabe disso. Nenhum país que quer expandir seus mercados pode considerar não estar aqui. Somos o quarto maior país usuário de internet, temos 134 milhões de usuários”, pondera.

Essa percepção, entretanto, não descarta outros riscos. “O que vai acontecer é uma percepção, para o empresariado chinês, de que o Brasil é um mercado importante, mas difícil de entrar. E ele vai buscar oportunidades de investir em outros países com ambiente de negócios mais favorável. É o que ela [a China] está fazendo na África e outros países da América do Sul, como a Colômbia. Então os recursos chineses que poderiam vir para cá vão para outros lugares”, conclui.

Neste cenário, mesmo que o Brasil não saia perdendo no que diz respeito aos negócios já firmados, pode fechar portas para outros acordos e a prospecção de investimentos para o desenvolvimento de áreas e tecnologias nas quais o país não tem tradição – encarecendo o acesso e esticando a demora até sua disponibilidade para a população, com prejuízo para o consumidor e a indústria.

[…]Uma escolha entre China e Estados Unidos poderia deixar o Brasil suscetível a reações. Supondo que o governo federal de fato opte por impedir a participação da Huawei, uma reação chinesa teria potencial para colocar em risco uma relação positiva.

O Conselho Empresarial Brasil-China observa que o país asiático é um dos poucos para os quais as exportações brasileiras cresceram durante a pandemia.

“No período de janeiro a setembro, as vendas do Brasil à China tiveram alta de 14%, enquanto as exportações totais (incluindo China e todos os demais destinos) recuaram 7,7%. Como resultado, a participação da China nos embarques nacionais subiu de 27,6%, nos nove primeiros meses de 2019, para 34,1% em igual período de 2020”, destaca a embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, Presidente do CEBC.

Sobre a disputa em si, o embaixador pontua que “certamente os que forem preteridos numa eventual escolha brasileira podem ter a tentação de adotar medidas retaliatórias” contra o Brasil. “No caso da China, que é hoje o nosso mais importante parceiro comercial e grande investidor em setores importantes de nossa economia, a imposição de medidas retaliatórias poderiam ter consequências muito mais danosas para a economia brasileira do que eventuais sanções impostas por outros países”, avalia Castro Neves.

O segmento brasileiro com potencial de prejuízo é o agronegócio, que ocupa no topo da lista de produtos mais exportados para a China. Aqui entram commodities como soja e açúcar, que poderiam encontrar competidores caso os chineses decidissem colocar o Brasil em segundo plano e comprar de outros países, como nossos vizinhos Paraguai e Argentina.

Sobre os riscos de se dispensar a China, Inohara avalia que o governo atual não está levando em conta o fato de que uma relação entre países é sempre de longo prazo e não se limita à relação de governos. “Governos têm mandato, prazo de validade, seja aqui, seja na China. Vai ter troca de poder em algum momento, mas a relação comercial fica. Temos que manter canais abertos nas empresas e nos governos. Buscar uma relação comercial pragmática”, diz.

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