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Principais notícias sobre China publicadas na imprensa brasileira e internacional.

Isto É Dinheiro

No último dia 25 de julho, em pleno verão chinês, o clima na cidade de Hangzhou, na região leste do país asiático, estava particularmente insuportável. Havia uma densa camada de poluição no céu, que acentuava a sensação de estufa. Por volta das 15h, em meio a um calor de 41 graus Celsius, a reportagem da DINHEIRO chegou à sede da Hikvision, líder mundial no fornecimento de soluções e de produtos de videovigilância e segurança eletrônica. Os funcionários, orgulhosos, não cansam de repetir que a companhia fornece um terço de todas as câmeras de monitoramento instaladas no mundo. Naquele instante, sob a liderança do executivo Hu Yangzhong, os diretores da empresa estavam reunidos com a comitiva do prefeito de São Paulo, João Doria, que passou uma semana na China em busca de investimentos.

Doria saiu satisfeito do encontro após conseguir a doação de mil câmeras e de um drone avaliado em US$ 1 mil. Mais entusiasmados ainda estavam os executivos chineses, que enxergam a megalópole São Paulo como uma vitrine para conquistar o País. A aposta é simples: a violência urbana vai obrigar os governantes brasileiros a investir em câmeras, e a Hikvision quer ser a principal fornecedora. “Nossa meta é ter o Brasil como nosso terceiro maior mercado, só perdendo para a China e os Estados Unidos”, afirmou à DINHEIRO o presidente Yangzhong. “Estudamos até abrir uma fábrica no País.” Atualmente, a companhia possui um escritório em São Paulo e uma linha de montagem em Manaus.

O setor de tecnologia chinês arregala os olhos para o mercado brasileiro. DINHEIRO visitou outras cinco empresas que têm interesse concreto no País – muitas já atuam aqui. A Dahua Technology, em Hangzhou; a ZTE, em Xangai; a Lenovo, em Pequim; e a Huawei e a BYD, em Shenzhen. A Dahua e a Huawei fabricam equipamentos de monitoramento, a exemplo da Hikvision, enquanto a ZTE está no setor de telecomunicações. A Lenovo, que detém a marca Motorola e comprou a divisão de computação pessoal da IBM, atua no segmento de computadores e celulares. Já a BYD é uma montadora de veículos elétricos. O discurso das empresas chinesas em relação ao Brasil é muito parecido. Os executivos destacam o potencial do nosso mercado e minimizam os problemas econômicos e políticos.

“A nossa visão é de longo prazo”, diz Wai Ming Wong, vice-presidente executivo da Lenovo. Para Fu Liquan, presidente da Dahua, empresa que forneceu equipamento de monitoramento para os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o Brasil já é um mercado estratégico. “Nós somos líderes na América Latina e temos 50% de market share no Brasil.” A Dahua vai participar de um grupo de trabalho da Prefeitura de São Paulo para criar uma Parceria Público-Privada (PPP), em 2018, com a meta de instalar pelo menos 10 mil câmeras até 2020. Esse apetite chinês pelo Brasil não se limita ao setor de tecnologia. Os investimentos do gigante asiático no País crescem de forma vertiginosa e já ultrapassam os R$ 100 bilhões, nos últimos três anos.

Segundo cálculos de Eduardo Centola, sócio do Banco Modal, que vem ajudando diversas companhias asiáticas a entrarem no País, os aportes anunciados por companhias chinesas por aqui saltaram de R$ 6,5 bilhões, em 2014, para R$ 30 bilhões no ano seguinte. Desde então, seguiram subindo: R$ 40 bilhões, em 2016, e, neste ano, devem bater os R$ 50 bilhões. Em sua maioria, trata-se de operações de aquisições de empresas brasileiras, de diversos setores. No ano passado, as fusões e aquisições representaram 53% dos investimentos chineses no Brasil, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China. A formação de joint ventures respondeu por outros 20% e 27% foram destinados ao chamado greenfield – quando se constrói uma operação do zero.

“Os chineses querem usar o Brasil como porta de entrada para toda a América Latina”, afirma José Magela Bernardes, presidente da Prumo Logística, que administra o Porto do Açu, no Rio de Janeiro. A Prumo está otimista com o futuro desse relacionamento sino-brasileiro. No final de junho, o porto recebeu uma comitiva de 20 empresários chineses, acompanhados do embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang. Segundo Magela, os visitantes demonstraram interesse em instalar nos arredores do Açu, onde a Prumo desenvolveu um polo industrial, empresas de diversos setores, de mineração e óleo e gás a linha branca. “É um movimento que vai acontecer, certamente”, diz o executivo.

Mais do que simplesmente se aproveitarem de uma possível retomada econômica do maior mercado da América do Sul, os chineses querem fincar raízes no Brasil, apostando em projetos de longo prazo. Isso fica claro quando se olha para o setor de energia, que concentrou grande parte dos investimentos asiáticos dos últimos três anos. Somente a China Three Gorges (CTG), dona da maior hidrelétrica do mundo, no Rio Yang-Tsé, o mais extenso da China, colocou R$ 23 bilhões no País, entre aquisições e melhorias dos ativos. “O que podemos dizer é que vamos nos estabelecer como uma empresa relevante no Brasil”, afirma Evandro Vasconcelos, vice-presidente de geração da CTG Brasil. “Novos investimentos serão feitos dependendo das condições de concessões e projetos.”

Entre os negócios da CTG no Brasil, destacam-se a aquisição de ativos da portuguesa EDP, como a hidrelétrica de Santo Antônio do Jari, no Pará, em 2014, e a compra de ativos da americana Duke Energy, em dezembro do ano passado. Com isso, ela alcançou uma capacidade instalada de geração de 8,27 GW – a título de comparação, Itaipu, a maior hidrelétrica brasileira, possui uma capacidade instalada de 14 GW. A CTG não foi a única grande elétrica chinesa a fincar seus pés no País. Em janeiro deste ano, a State Grid, maior empresa do setor elétrico no mundo, com sede em Pequim, adquiriu uma participação de 54,64% na CPFL Energia. Para isso, desembolsou R$ 14 bilhões.

Especula-se que há pelo menos seis outras elétricas chinesas preparadas para vir ao País. Provavelmente, uma delas será a State Power Investment Corporation (SPIC), que negocia a compra da usina de Santo Antonio, no Rio Madeira, em Rondônia, que tem entre seus acionistas a Cemig, a Odebrecht, a Andrade Gutierrez e a Eletrobras. O negócio pode chegar a R$ 12 bilhões e, de acordo com pessoas a par da negociação, já estaria praticamente fechado. Segundo Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, o que atrai os chineses para o setor elétrico é a possibilidade de ter um papel importante no País. E eles têm dinheiro sobrando. Financiamento barato não é um problema para as empresas chinesas investirem no exterior.

DINHEIRO esteve na sede do Banco da China, equivalente ao Banco do Brasil, e do Banco de Desenvolvimento da China (CDB, na sigla em inglês), equivalente ao BNDES, ambas em Pequim, e constatou que os recursos estão à espera de bons projetos. No caso do Banco da China, que conta com uma filial em São Paulo, o maior interesse está nas áreas de infraestrutura, energia, agronegócio e a chamada nova economia, que abrange projetos de tecnologia e inovação. Representante da instituição no Brasil, Guahua Zhang reconhece que a crise política e econômica “de certa maneira, com certeza, vai afetar a confiança dos investidores”, mas salienta que os chineses estão “sempre olhando o futuro”. Zhang, que também acumula a função de presidente da Associação Brasileira de Empresas Chinesas, com cerca de 80 sócios, promete dar “opiniões, sugestões e apoio no plano financeiro” a todas as empresas estatais interessadas em abocanhar uma fatia do mercado brasileiro.

O aval da instituição bancária é fundamental para viabilizar os investimentos. Já o CDB, maior banco de desenvolvimento do mundo, com US$ 300 bilhões investidos globalmente – US$ 25 bilhões no Brasil –, demonstra disposição em financiar projetos na área de infraestrutura, incluindo transporte público. “Podemos fazer isso por meio de empréstimos, leasing e emissão de debêntures”, afirma Lei Lei Song, chefe do escritório brasileiro do Banco de Desenvolvimento da China, cuja sede fica no Rio de Janeiro. Song citou como alvo o projeto de transformar o cartão do bilhete único, utilizado em São Paulo, em um sistema de pagamentos via celulares. O setor financeiro, aliás, também não passou incólume pela onda compradora chinesa no País.

O China Construction Bank, por exemplo, comprou o BicBanco, em 2013, por R$ 1,6 bilhão. No ano passado, a instituição financeira se comprometeu a mais um aporte de capital, de US$ 200 milhões (cerca de R$ 600 milhões). Também em 2016, o Fosun Group, holding privada de investimentos que gerencia ativos no valor de US$ 60,75 bilhões – entre eles o Club Med e o Cirque du Soleil –, adquiriu o controle acionário da gestora Rio Bravo, que tem o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, como uma dos seus fundadores. Na época, o presidente da Fosum, Guo Guangchang, afirmou que o Brasil é “geograficamente um canal que liga a América Latina e a Ásia”.

LIDERANÇA GLOBAL Essa visão geopolítica é importante para entender os movimentos chineses no Brasil. Todo esse interesse é, na verdade, parte de uma estratégia maior: a China quer se consolidar como uma liderança global. A segunda maior economia do planeta, com um PIB de US$ 11,2 trilhões e reservas de US$ 3 trilhões, cansou de jogar segundo a lógica de governos estrangeiros e, agora, investe para expandir os seus fundamentos pelo mundo. Notadamente, a ideia é exportar o mundialmente conhecido conceito de “crescimento chinês”. “A história vai lembrar-se do presidente Xi Jinping como o líder que consolidou o papel de liderança global da China”, afirma Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (leia entrevista ao final da reportagem).

“A estratégia chinesa é ganhar dinheiro e fazer seus parceiros ganharem dinheiro” O modelo é simples. Ao incentivar suas empresas a colocarem dinheiro fora das fronteiras chinesas, o gigante asiático garante o crescimento econômico de que precisa para gerar emprego a seus mais de 1,3 bilhão de habitantes. Para isso, diz Tang, é preciso criar prosperidade nos países em que o gigante asiático desembarca. “A China não envia seus fuzileiros, envia seus homens de negócio”, diz. O projeto mais ousado de Xi Jinping é, sem dúvida, a nova Rota da Seda. Trata-se de um plano colossal envolvendo 68 países que, juntos, detém 40% da riqueza no mundo. A ideia é formar um cinturão econômico ligando Ásia, África, Oriente Médio e Europa adotando medidas como incentivos fiscais à exportação e, principalmente, muitos investimentos em portos, aeroportos e ferrovias.

O montante direcionado a esse projeto já alcança a marca de US$ 1 trilhão, desde 2013, quando foi anunciado. Jinping vem tirando cada vez mais proveito de uma janela de oportunidade que foi aberta com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Na gestão de Barack Obama, parecia que a China teria mais dificuldade em implementar seus planos de dominar o mundo, especialmente depois que foi anunciada a chamada Parceria Transpacífico (TPP), um acordo de livre comércio assinado entre Estados Unidos, Japão e mais dez países. De fora da parceria, os chineses corriam o risco de ver sua influência ser reduzida, inclusive na Ásia.

Uma das primeiras medidas de Trump no cargo, no entanto, foi retirar os EUA da TPP. Pouco depois, o mandatário americano também decidiu abandonar o Acordo de Paris, que estabelece metas para conter o aquecimento global. Sem perder tempo, o presidente chinês tratou de ratificar seu compromisso com o clima e se transformou numa espécie de novo porta-bandeira da globalização. “Perseguir o protecionismo é como se fechar em um quarto escuro”, afirmou Jinping, em janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde proferiu um discurso de uma hora em defesa do livre comércio. “O vento e a chuva ficam de fora, mas assim como a luz e o ar.

EM BUSCA DAS COMMODITIES Em 2015, enquanto Trump crescia nas pesquisas eleitorais da eleição americana, o apetite chinês por ativos estrangeiros atingia seu ápice. As aquisições feitas por companhias chinesas no exterior alcançavam a marca histórica de US$ 60 bilhões. Nesse mesmo ano, os chineses anunciaram investimentos de US$ 9,4 bilhões no Brasil, quase cinco vezes mais do que em 2014. O País, e também a América Latina, acabam sendo estratégicos para os asiáticos por um enorme motivo: commodities. A demanda chinesa vem impulsionando a balança comercial brasileira. No ano passado, o comércio bilateral gerou um superávit de US$ 11,7 bilhões para o Brasil. “Até 2025, o mercado chinês vai demandar 120 milhões de toneladas de soja”, afirma Carlos Kempff, CEO da Fiagril, trading e processadora de grãos com sede em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso.

Isso explica porque a Dakang, braço de agronegócio do grupo Shanghai Pengxin, investiu US$ 200 milhões na compra de 57% das ações da Fiagril, no ano passado. A demanda da indústria chinesa por matérias-primas justifica, também, a compra das operações de mineração de Nióbio e Fosfatos da britânica Anglo American, localizadas em São Paulo e Goiás, pela China Molybdenum, numa transação que movimentou US$ 1,5 bilhão. No setor de petróleo, a China National Petroleum Corporation (CNPC) assinou um memorando de entendimentos com a Petrobras para a construção de uma refinaria no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), obra investigada pela Lava Jato. Estima-se que a conclusão do projeto demande mais de US$ 3 bilhões.

O investimento em commodities, no entanto, pode extrapolar para uma atividade polêmica: a compra de terras. Os chineses são grandes interessados na flexibilização das regras para compra de propriedades brasileiras por estrangeiros. Essas mudanças estavam sendo discutidas no âmbito da Medida Provisória 759/2016, conhecida como “MP da Grilagem”. O texto foi aprovado pelo Senado, mas uma liminar do Supremo Tribunal Federal determinou que a lei retorne à Câmara. Esses arroubos expansionistas chineses também geram preocupações com violações aos direitos humanos, especialmente na África. Na Zâmbia, um incidente numa mina de carvão em 2011, em que gerentes chineses atiraram contra manifestantes durante um protesto, gerou uma grande comoção no país e também um forte sentimento antichinês. No Quênia, a presença chinesa se tornou assunto de campanha presidencial após o colapso de uma ponte construída por uma empresa asiática.

O acidente aconteceu 12 dias depois que o atual presidente do país, Uhuru Kenyatta, candidato à reeleição, fez um comício no local, dizendo que a construção da infraestrutura traria muitos benefícios à região. Seu rival, Raila Odinga, agora acusa Kenyatta de acelerar a obra por motivos políticos. De fato, os investimentos chineses fazem parte da plataforma do atual mandatário. Somente um projeto, de uma ferrovia ligando Mombaça a Nairóbi, deve consumir investimentos de US$ 3,8 bilhões. O avanço chinês também levanta questionamentos sobre soberania nacional, no mundo inteiro. A Alemanha, por exemplo, publicou um decreto que reforça as regras de investimentos estrangeiros em empresas consideradas estratégicas. A lei não se destina a uma nação em especial. Mas a chanceler alemã, Angela Merkel, vem demonstrando publicamente preocupações com o expansionismo do país asiático.

Polêmicas à parte, o fato é que os chineses estão aqui, e devem ficar por muito tempo. Isso por que, além de terem muito dinheiro, eles demonstram paciência. Vide o caso da fabricante de máquinas pesadas LiuGong, que investiu R$ 100 milhões numa fábrica em Mogi Guaçu, no interior de São Paulo, inaugurada 2015. Desde então, o setor de infraestrutura está praticamente parado. Como se não bastasse a recessão econômica, a Lava Jato devastou o mercado. Em entrevista à DINHEIRO, no final do ano passado, o chairman da companhia, Zeng Guang’an, se mostrava sereno. “Podemos esperar o mercado reaquecer”, disse Guang’an. Ou seja, é bom os empresários brasileiros irem se acostumando com os costumes chineses. Difícil vai ser aprender o mandarim.

A costa leste da China, onde estão cidades como Pequim, Xangai e Shenzhen, é a região com maior renda per capita. Durante décadas, o governo investiu em grandes obras de infraestrutura e financiou o setor imobiliário, o que garantiu uma expansão anual do PIB superior a 10%. Atualmente, essas metrópoles estão apinhadas de pomposos arranha-céus por todos os lados. Engana-se, no entanto, quem imagina que a construção civil anda ociosa por lá. Basta uma volta de cinco minutos de carro para flagrar inúmeras gruas trabalhando a todo vapor. Como é possível observar na foto ao lado, tirada na sexta-feira 29, no centro de Shenzhen, os guindastes estão lá para impulsionar a economia e, por tabela, atrapalham o cartão-postal.

Nos últimos anos, o governo chinês alterou a base do seu crescimento. A ênfase na infraestrutura e nas exportações deu lugar ao estímulo ao consumo. Milhões de famílias foram induzidas a migrar da zona rural para a zona urbana. Com emprego e renda, a população foi às compras. O novo modelo, no entanto, reduziu o patamar de expansão do PIB para a casa dos 7% ao ano, com tendência de baixa. Para evitar uma desaceleração maior, as autoridades locais voltaram a estimular o setor da construção e obrigaram as estatais a investir. As obras ininterruptas nas grandes cidades não deixam nenhuma dúvida de que o setor é a carta na manga do governo chinês contra um eventual pibinho. Em muitos casos, é possível notar que os investimentos em aeroportos e shopping centers vão além da necessidade atual, gerando ociosidade. Já no setor imobiliário, os arranha-céus são sustentados por uma fartura de crédito. Se há uma bolha ou não, só o tempo dirá.

 

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