“Não me espanta que comece a faltar produto para setores dependentes da China”, diz especialista

Zero Hora (Marta Sfredo) | Dependência do país asiático afeta tanto o abastecimento específico de insumos chineses quanto a logística global de transportes, adverte analisa de conselho bilateral

O Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) está na linha de frente da coordenação oficial entre os dois países. Fundado em 2004, é um órgão bilateral sem fins lucrativos formado por duas seções independentes. Com sede em Pequim, a chinesa tem atividades coordenadas pelo Ministério do Comércio da China e integra a estrutura do Conselho para Promoção de Investimento Internacional da China. Em 2015, foi reconhecido oficialmente no Plano de Ação Conjunta assinado pelos dois países como o principal interlocutor dos governos na promoção das relações empresariais. Coordenador de análise e pesquisa do CEBC, Tulio Cariello ajuda a explicar o tamanho do impacto econômico provocado pelo coronavírus e as perspectivas de solução, mas admite que não há previsibilidade, neste momento, para normalização da parada na produção industrial chinesa, que começa a afetar a indústria e até o varejo brasileiros

Há indicativos de que a China caminha para normalizar a produção?É difícil assegurar, pois já houve, em outros momentos ao longo dessa crise, a ideia de que a produção seria retomada, depois houve adiamento. Neste momento, não há previsibilidade. Foi adiada uma reunião muito importante que ocorre tradicionalmente em março (o Congresso Nacional do Povo é, em tese, o mais alto organismo governamental do Poder Legislativo, embora na prática o poder se concentre no Comitê Permanente do Politburo, que tem sete integrantes). É um momento para rever o que foi feito no ano anterior e determinar as prioridades do ano corrente. A deste ano será muito importante para dar maior previsibilidade sobre o impacto do coronavírus na economia chinesa, incluindo a questão da retomada da produção. Por uma questão de saúde pública, o governo chinês tem consciência de que não é uma boa ideia colocar cerca de 2 mil deputados reunidos em ambiente fechado. Para termos noção mais clara do que vai ser feito, é importante acompanhar essa reunião. Existem precedentes de adiamento desse encontro, mas é algo muito raro. Só ocorre quando há uma ‘pedra no sapato’. A crise tomou proporções mundiais, não só pelo fato de que o mundo inteiro depende da China, mas também porque o país é um comprador e um fornecedor ainda muito importante.  

Qual é o real tamanho dessa dependência?
Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Ainda somos muito dependentes da China na exportação. Antes, comprávamos mais da China, do que exportávamos, mas esse cenário se transformou. Atualmente, temos seguidos saldos positivos na balança comercial. No ano passado, a China correspondeu a 20% das importações brasileiras, com os Estados Unidos em segundo lugar, com 17% e, em terceiro, a Argentina, com 6%. E o país asiático ainda é nosso maior fornecedor. Importamos manufaturados, produtos químicos, veículos, produtos de plástico, têxteis. E há muitos  itens que não são produtos finais, então a indústria brasileira depende de componentes chineses. Isso afeta mais os setores eletroeletrônico, de máquinas e equipamentos, têxtil e calçadista. Não é trivial, de uma hora para outra, mudar de fornecedor, até porque o próprio transporte marítimo teve queda muito acentuada. A China é uma potência comercial marítima, não afeta só o envio da própria produção interna, mas a logística global de transporte. Isso afeta toda a cadeia de produção, não só no fornecimento direto, mas em toda a logística envolvida. Não me espanta que comece a faltar produtos para setores dependentes da China. Em janeiro, 31% das importações do Brasil vieram de lá, com ligeiro aumento em relação a janeiro de 2019, de 0,3%.

O fato de a parada na China afetar empresas como Apple e Microsoft, além de toda a indústria de eletroeletrônicos mostra que o país sofisticou muito sua produção?Os chineses continuam exportando produtos baratos, mas o perfil atualmente é muito mais diversificado. A tecnologia tem peso muito grande, é uma questão que tem de ser pensada a longo prazo. Nos últimos anos, até o governo brasileiro diz que precisamos diversificar nossos destinos de exportações, pois somos muito dependentes da China. Quando houve o episódio da peste suína africana, as exportações de soja tiveram problemas. Por outro lado, a exportação de carne suína aumentou vertiginosamente. Em 2018, tivemos recorde histórico de exportação, não só para a China, mas de toda corrente comercial brasileira. Em 2019, manteve-se em patamar elevado.Temos de observar a diversificação de fornecedores também, a China de hoje não é mais a China superbarata de se produzir internamente. Os salários são maiores, tem características mais sofisticadas de produção. Algumas empresas já começaram a enviar a produção para países mais baratos, como Vietnã, Camboja e todo o Sudeste Asiático. Isso ainda está em construção, a China ainda é o chão de fábrica de muitas empresas. É importante buscar novos fornecedores para se resguardar de problemas como esse. Um vírus foge do controle humano, é um risco adicional para o comércio internacional, é mais uma pressão depois do conflito comercial com os Estados Unidos. Entramos em uma era de comércio administrado, muito preocupante, em que impera a lei do mais forte.

Por que esse episódio, embora ainda seja comparável ao da Sars em número de pessoas doentes e índice de letalidade, provoca maior impacto econômico?
Hoje o mundo é muito mais dependente da China do que em 2002 e 2003, quando houve a Sars. Independentemente da letalidade, o que preocupa é a dependência do mundo em relação à China. O reflexo inicial dos analistas era fazer essa comparação porque era um episódio conhecido, mas a participação da China no crescimento do PIB (PPP) global em 2003 era de 17%, atualmente é de 32%. E participação no comércio era de 3%, hoje é de 12%. Isso falando em efeitos práticos sobre economia ‘bruta’, mas há outro fator, o turismo. Qualquer queda no turismo dos chineses afeta a economia. Em 2003, o número de turistas chineses que viajavam ao exterior era 23 milhões. Em 2019, saltou para 166 milhões. Por risco de contágio, o próprio governo desestimula a saída. E os chineses são conhecidos como turistas que gastam muito dinheiro. Isso é tão significativo que atualmente há propagandas em mandaria em locais tão diferentes quanto Paris e Machu Picchu. Qualquer queda no número de turistas afetar esse segmento da economia.

Diante disso, as primeiras estimativas de redução de crescimento global são realistas?É muito difícil avaliar. Provavelmente vão ocorrer muitas revisões de projeções ao longo do ano.

Como o conselho vem acompanhando esse período?
O que tenho observado, entre os associados, é uma situação como se os negócios diretos com a China estivessem ‘fechados para balanço’. Alguns empresários tiveram viagens canceladas, sem previsão de nova data. Mas ninguém está em pânico. Agora, o problema não está mais só na China. 

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